Quantas fadas são necessárias para realizar um conto?Era início de verão e o calor das ruas, dos corpos seminus, lhe incomodava de tal forma que mantinha-se em casa quase o dia todo. Passava seu tempo lendo, escrevendo, rabiscando desejos e lamúrias em folhas infindáveis. Vez ou outra erguia-se e se dirigia à janela onde acendia um cigarro, fumava e depois retornava, à passos pesados, ao desempenho de qualquer coisa que a distraísse. Tomava a si um velho violão, e esquecia-se de todo o mundo que a cercava e, assim, ia tocando seus dias através da interminável espera pelo cair da noite. Todos os dias lhe eram longos, insossos e improdutivos.
Conforme o sol caía, nova vida tomava posse de seu corpo. O som alto, agitado e cheio de ruídos, denunciava as ansiedades que lhe consumiam e afastava de si qualquer possibilidade de melancolia ou decepção. Cabelos ruivos, pele clara, rosto pintado, unhas afiadas e cheiro de rosas. Cerveja gelada, sinuca, gritos e entorpecentes. Naquela noite, em especial, levava um lenço carmim à cabeça e os ombros - pálidos ombros encobertos por uma fina camiseta negra - esgueiravam-se do tecido e mostravam-se macios e sedentos de amparo ao luar.
Quando a escuridão lançou seu manto sobre a cidade, ela sorria; todos os olhares e palavras ela retribuía. Deteve-se conversando com alguém que lhe parecia feito de névoa e, em pouco tempo, saboreava lábios gelados com a mesma intensidade com a qual desfrutara, em noites passadas, os prazeres que lhe proporcionaram.
Acordou com a cabeça pesada e viu seu mundo girar ao levantar. Ressaca. Alimentou-se brevemente e pôs-se a dedilhar sobre o antigo companheiro de dias ociosos. Ao cair da noite, enquanto se vestia, notou que não mais possuía o lenço carmim, bem tão estimado. Então, estupefata, errou por entre as portas e ancorou-se no mais próximo boteco. Com o olhar já enegrecido tentava concentrar sua atenção ao livro que detinha sobre o balcão. Em vão. Não pôde deixar de notar belo rapaz que adentrava o recinto: pele clara, cabelos cor de ouro, mãos trêmulas e olhar inquieto. Por instantes viu-o caminhar em sua direção, mas logo revirou-se e retomou sua leitura.
- “Olá?”, disse uma voz insegura.
- “Ah sim, olá...”, respondeu sem tirar os olhos do livro.
- “Acho que isso é seu...”, insistiu a voz.
- “Ahhh, você não está realmente achando que...” – e interrompeu rapidamente a fala ao se deparar com o tal lenço carmim – “... Oras! Que bom! Achei que o tinha perdido. Muito obrigada!”, disse retirando o estimado adereço das mãos trêmulas do rapaz.
- “Não! Espere!” – retorquiu o rapaz, segurando o lenço por entre seus dedos, em uma instantânea disputa de forças que pareceu infinita – “Eu não quero devolvê-lo...”
A esta altura nenhuma voz era ouvida e o tempo, paralisado, parecia prolongar ainda mais o momento.
- “Como não quer me devolver?!? Isso é algum tipo de piada?” – disse impaciente a moça.
- “É que quando o observo recordo-me de você e... isso é bom pra mim, entende?”, disse e suspirou aliviado o rapaz.
Diante da inesperada declaração a expressão naturalmente rude do rosto da moça desfez-se, e ouso dizer até que seus olhos perderam-se em um brilho infinito enquanto degustavam a deliciosa sensação daquele momento:
- “Obrigada, de verdade. Tenho especial afeto por esse pedaço de pano... Qual é mesmo o seu nome?”, indagou a moça ainda dispersa em suas fantasias.
Enquanto o tímido rapaz satisfazia-lhe a curiosidade, ela viajava: corria pelos Contos de Fadas esbarrando violentamente em Belas Adormecidas, Brancas de Neve até deter-se diante de Cinderela. Era ela a Cinderela, estava certa disso. Jamais tivera tamanha certeza de algo, como agora.
Então como que para dar mais emoção, mais fantasia talvez, ao momento que vivia, disse ansiosa e em tom insinuante:
- “Ahhh sim! O prazer é meu. Mas tenho de ir embora, muitas coisas a se fazer... Sabe como é, né?” – e saiu veloz com um leve sorriso na face, sem voltar-se ao rapaz que, confuso, permaneceu parado sem nada entender. Sumiu pela rua e teve no que pensar durante todos os dias ociosos que seguiram.
O rapaz, com seu olhar perdido, suspirou:
- “É, lá se vai mais uma... Como essas mentes femininas são complexas! Ainda esqueceu o tal lenço... Deve ser estresse.” – e, caminhando pelas ruas, avistou uma garota que brigava contra o vento para prender seus próprios cabelos. Comovido, disse: “Ei, mocinha! Este lenço pode te ajudar. É só colocá-lo assim ó... e pronto!”, e continuou seu caminho sem mais interrupções, acompanhado apenas pelo leve cheiro de rosas - exalado pela intrigante mulher - que ainda perpassava-lhe as narinas e atiçava suas lembranças mais doces.
Assim se perdem as esperanças de um grande amor, e se esvaecem as imagens da rude mulher e do tímido rapaz, deixando fixarem-se apenas as jovens esperanças e sonhos da menina que, saltitante, conta para sua mãe:
- “Mas é verdade mamãe! Ele era loiro, alto e me ajudou a prender os cabelos! Olha o presente que ele me deu, mamãe! Olha! Ainda tem o cheiro dele! Meu Príncipe Encantado!... E cheira como uma rosa! Ah! Meu príncipe cheira como uma rosa!”
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Ninguém precisa ficar para sempre em lugar algum.
Sentimento algum precisa fixar-se sempre em alguém.
O amor transcende ao material, e desapega-se com a mesma facilidade com a qual atinge outro ser mais digno, ou não, porém sonhador.
A mulher, que um dia sonhara, pôs-se então a regar sua frágil esperança – pois lhe disseram, certa vez, que sem amor ninguém vive – talvez ela ainda esteja em estado de formação; talvez esse mundo seja apenas o seu útero. Talvez não.
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Com o tempo você, caro leitor, perceberá que sou incapaz de findar devidamente uma história, um conto ou um causo...
A inabilidade de o fazer torna meus textos reflexivos demais, vagos e evasivos demais....
Qualquer semelhança com a autora não trata-se, portanto, de mera coincidência.
Um dia aprendo a colocar pontos finais no que escrevo, no que vivo, no que penso...
E isso (cá entre nós) irá me doer tanto!
Depois que se adquire a arte de suspirar, de admirar, de apreciar reticências....
Tudo o mais se torna seco, sério e simétrico demais para que eu posso digerir....
Atente-se!
Bons Sonhos,
PierroT_

5 comentários:
deleitando-me aqui, fiquei com os olhos fixos a essa tela de luz ofuscante, e lutando contra ela, pude seguir com meu deleite na leitura deste conto... reticências são excelentes p se 'findar' algo... pois, como disse - vc -, elas sempre deixam as coisas reflexivas, evasivas e vagas... assim, tenho, então, com o que ficar pensando antes de dormir, viu minha poetisa !? ^^
saudade louca e suada de todos os dias longe de vc...
ano que vem, É SANCA ! ;D
(L)
PS: quiçá, num futuro não mto distante, eu crie uma conta aqui também...
ahhh.. sem formalidades... TE AMO BAGARAAAAAAAI !!! ^^
HA ! agora com um blog aqui.. ^^ passa lá e veja meu primeiro post - por enquanto o único lá, ^^ -...
sempre me deixa pensativo, com um ar de cogitar as coisas... pois bem.. de mto tem razão... mas enfim... tudo se veste voluptuosamente p deleitar nossa visão.. por isso temos de usar a cogitação.. mas tudo é contraditório... o meio que eles, TM, usam p expressarem; ou pseudo fazê-lo, como queira; é a mídia, e a criticam ao mesmo tempo.. e os ativistas !? como vão aos lugares e conferências !? voando ou rasgando estradas com seus carros.. tudo é contraditório... se todos fizessem o que pensam - dizem -, quem sabe isso algum dia...
a saudade é imensa... eu te irrito !? ahhh.. imagina... é só coisa do seu pensar, se perceber direito, não irrito não.. =P
hmmm.. a leitura te deixa cada dia mais instigante... ^^
te aaaamo !!!
teu cabeçudo...
fala...amore..!!!
ai..ai..ai..!!
eu e tua mãe lemos alguns texto ..!!
EU DIGO... QRIDA...
Q SEMPRE Q LER SEUS CONTOS...
TENHO CERTEZA DE TER VC BEM JUNTO DE NÓS...
SINTO SEU CHEIRO,
OUÇO SEU SORRISO,
ESCUTO SEU DEDILHAR EM SONS PERDIDOS...
E VEJO TUA SOMBRA PERAMBULANDO PELAS PAREDES BRANCAS DE NOSSA CASA...
BJUS MEU AMOR...
VA SEMPRE EM FRENTE...
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