quarta-feira, 30 de julho de 2008

Desabafo_

segunda-feira, 16 de junho de 2008 20h15

Achei que nunca mais em minha vida teria essa sensação novamente.

A cabeça está cheia de pensamentos, agitados, fumegando como uma pequena brasa que resiste em permanecer acesa. Todos os meus conceitos estão passeando velozmente em minha consciência. Os dedos, que rapidamente dão forma a toda essa união de letras - inicialmente impassíveis de combinação - entoam um canto que apenas eu ouço.

Posso sentir aquele antigo brilho em meus olhos. Aquele que outrora possuí quando corria pelas ruas sem rumo, quando sorria ao notar meus cabelos dançando levemente embalados pelo vento. Estou calada, mas canto; e minha alma voltou a pulsar.

Quando era menina, eu observava. E agora, finalmente, notei que sou parcialmente capaz de exprimir tudo o que me aflige e conforta. Suave veneno que é o escrever. Prazer tão íntimo e insidioso que me aquece todo o corpo. Eu já estava certa de que havia me tornando uma alma engessada, daquelas que pululam pelo mundo e apenas acompanham o seu ritmo. Mas não. Agora não mais!

Estou sambando com as palavras, desenvolvendo um ritmo só meu, que faz apenas o meu mundo girar e à minha maneira. Estou sibilando sons que não entendo, extravazando todo o prazer que sinto ao me encontrar. As palavras atordoam, me causam um efeito entorpecente que jamais encontrei de outra maneira (e posso dizer que conheço quase todos os outros caminhos).

Posso sentir cada letra percorrendo o meu corpo antes de direcionar o meu pensamento e, consequentemente, os meus dedos. Elas passam velozes. Como se injetassem diretamente no sangue alguma substância corrosiva, que te obriga a expelir, a expressar, a expulsá-la do corpo. Tudo queima, e é tão bom quando estou em brasa.

As letras atraem, naturalmente, umas às outras. Como se estivessem predestinadas, como se fossem inconscientes. São facetas de um mesmo cristal. São a paixão e as suas cara-metades. As frases soltas que construo são apenas as poucas lapidações necessárias para que o trabalho seja devidamente apreciado. Tudo é tão natural que arrisco dizer que esse processo todo não depende de mim.

Posso sentir a digestão que faço de cada idéia. Consigo imaginar a textura de cada construção verbal. As letras, vivas, dialogam comigo como se fôssemos antigas amigas. Estou sozinha, e apenas as minha idéias me bastam. As letras estão gritando, estão tentando chamar minha atenção, querem ser notadas, querem ser anotadas. E eu não posso parar, senão perco o ritmo, perco o timbre, perco o encadeamento de pensamentos que me guia.

As palavras correm de um lado para o outro, sinto-me como uma criança em meio a uma brincadeira de pega-pega. Elas disparam como feixes de luz, e eu transpiro ao tentar agarrá-las. E passo de raspão pela maior parte delas. As poucas que consigo deter se esvaecem rapidamente e pouco tempo me dão para que eu possa pensar em suas estéticas.

Elas cantam ciranda em volta de mim, como se estivessem sempre a cochichar piadas e gritinhos em meus ouvidos. Quando, por sorte, capturo as palavras certas me sinto em frenêsi, como se tivesse realizado um grande feito. Puro prazer.

E quando elas (as palavras) me chegam envoltas em música, poesias fluem de meus dedos como em uma cachoeira, onde a água - serena e translúcida - percorre seu suave caminho tortuosamente, sentindo a concurda de cada pedra, a textura de cada planta...

Se há algo no mundo que me dê maior prazer, este é o simples ato - hoje impuro e até poluído - de escrever. É ficar sozinha com meus pensamentos, minhas angústias, minhas paixões e desilusões. É poder fazer o balanço das experiências que já vivi. É poder planejar, inventar, suspirar e negar. Principalmente negar.

Minha paixão por esses estimados seres ululantes é tamanha que acaba por me encabular facilmente. Em cada letra sentida, em cada palavra expressada, em cada frase construída é como se eu me despisse, me atirasse nua em plena metrópole. E o amor é tanto que me arrisco por esses malditos indivíduos.

Se há algo em mim que jamais irá se alterar, é o prazer que sinto em fluir por meio de palavras.

Se há um sentimento que jamais abrirei mão de sentir, este é a paixão por essa ação tão tola e banal.

E me defendo! Pois, se ainda me contraria, alego que este é o tipo de amor perfeito. Ele nada exige senão um pedaço qualquer de espaço vazio e o mínimo de tempo. É o tipo de amor que está sempre presente em pensamento, é aquele que constrói a sua própria vida e ainda nos serve de alicerce para que possamos estruturar a nossa. É o amor sem ciúmes e mais arbitrário possível. Permite que nos expressemos e sempre está disposto a nos acolher.

Quando me dou conta de todo esse sentir, percebo que estou no caminho perfeito. Não caí neste curso à toa. Não me escarraram nesse lugar sem planejamento. As palavras são minhas pernas, meu cérebro, meu coração.

Com elas eu sinto. Por meio delas eu choro. E a dor eu disperso no papel.

Suspiro, assombro, sorrio, morro; renasço.

Canto, encanto, me canso e depois, só depois, é que o meu perfil eu mesma traço.

Sou e serei uma eterna apaixonada. Tenho e carregarei sempre comigo as palavras por mim tão amadas.

As minhas armas.

Um comentário:

Anônimo disse...

HA !!! deslizo em cada palavras, em cada som, tom e sentido de cada um que escreve...

suspiro a cada linha lida... pq é com prazer enorme que leio o que escreve... ^^



(L)