Mayra Fontebasso
30 de Julho de 2008.
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Era uma tarde de Domingo. O sol despontava, como de costume, em uma pacata cidade interiorana do Estado de São Paulo. Uma variedade imensa de turistas perambulava por entre os becos sadios e históricos do lugar e crianças corriam, aos berros, em volta das atrações 'gigantescas' que lhe traziam brilho aos olhos e sonhos à cabeça...
Eu apenas me recostava, como sempre fora um hábito meu, em um dos bancos de madeira envernizada do lugar. Levava um livro qualquer às mãos e me deliciava com os gritinhos que ecoavam por toda a Praça da Matriz. Resolvi iniciar minha leitura e, logo na terceira página, ouço uma vozinha que dizia:
- Nossa! Tudo aqui é tão grande! Por que as coisas são assim aqui, mamãe?
Olho para o lado e me deparo com o sorriso desconcertante da Mãe, que diz:
- Ah filha! Que pergunta mais tola! Deixe isso pra lá!
A Mãe seguiu seu caminho rumo à alguma loja de lembranças, e a criança permaneceu a observar atenta...
Aqueles minutos me pareceram demasiadamente longos enquanto eu me perdia no suave balançar do vestido rosado e florido da menina. Ele era de algodão, ilustrado com pequeninas rosas e exalava aquele cheiro de ingenuidade que apenas as crianças têm.
Ela possuía uma voz esganiçada, pele clara, longos cabelos lisos e castanhos e demonstrava estar incomodada com o sapato fechado, provavelmente uma insistência de sua mãe. Tinha braços longos e pernas tão finas que faziam com que o vestido parecesse levitar, mas foram as mãos dessa menina que detiveram a minha atenção.
Era alta, devia possuir em torno de oito anos, alta demais para a idade dela. Passava as delicadas mãos por entre os finos cabelos, fazendo-as escorregarem alegremente por seu esguio pescoço até alcançarem a sua boca onde, então, apoiava o dedo indicador nos delicados lábios e escorava o queixo com o seu achatado polegar. Ficou nessa posição por um longo tempo, sempre observando o objeto gigante que estava à sua frente.
Convencida de que a filha apenas sairia dali com uma resposta, a Mãe sentou-se e retirou um Guia Turístico da bolsa com a intenção de matar o tempo.
Tentei retomar a minha leitura de maneira a parecer indiferente a essa situação. Não obtive sucesso. A menina estava concentrada e enrolava os cabelos em um de seus dedos com movimentos hipnotizantes. A Mãe parecia notar que eu observava sua filha e, como um animal que observa atentamente a cria à distância, abaixou o Guia e me fitou diretamente nos olhos. Enrubesci. Abri um sorriso, a menina retribuiu e a mãe permaneceu desconfiada.
Foi então que, de um só salto, a menina - que já se encontrava sentada diante de tão grande dilema - escancarou um sorriso silencioso e caminhou até sua mãe soltando risinhos eufóricos. A mãe, por simples naturalidade, indagou:
- O que aconteceu Milena?
Milena. Era esse o nome dela. A euforia da menina era tamanha que esfregava fervorosamente suas mãozinhas. Depois, quando estas já se encontravam suadas, passava-as por todo o seu vestido de algodão e tornava a esfregá-las. E eu, novamente, me perdia nos movimentos, agora rudes, daquele pedaço de pano cheio de rosas.
A menina bem que tentou explicar, gesticulou movimentos extravagantes com as suas mãos pequenas e chegou a ficar nas pontas dos pés para fazer com que sua mãe entendesse o que dizia. A Mãe, ao ouvir provavelmente o chamado do marido, suspirou aliviada e seguiu rapidamente em direção ao carro. A menina a seguiu até metade do caminho, então parou e pôs-se a observar a réplica gigante. Aproximei-me, e disse:
- E então? Por que existem coisas assim aqui? Pra que serve esse Orelhão Gigante? - e sentei-me.
Milena ficou calada. Me olhou com uns olhos gigantes, maiores do que qualquer exagero dessa cidade pacata. Sentou-se, sempre silenciosa, ao meu lado e balançou os pequeninos pés por algum tempo. Indaguei novamente, na ânsia de saber o que aquela cabecinha estaria pensando:
- Acho que apenas as princesas de verdade podem subir lá no alto e usar esse telefone...
Milena fechou a cara mas permaneceu calada. Sua mãe já estava no carro e chamava seu nome. A menina insistia em mexer os seus dedos irregularmente e balançava a cabeça como se procurasse algum outro dilema para resolver. Então eu insisti:
- Será que você é a princesa que pode subir lá no alto?
A menina, então, parou de se movimentar e ergueu apenas a delicada mão, de onde fez surgir um sinal negativo com o dedo indicador, acompanhado de um sorrisinho esnobe que poucas vezes vi surgir na face de uma criança. Aquele balançar novamente me prendeu. Sua mãe gritava seu nome. Milena se assustou, levantou agitada e pôs-se a correr em direção ao carro. Instantaneamente eu gritei, vendo a menina se distanciar rapidamente:
- Milena! Me diz para quê serve essa coisa então?!? - apontando para o Orelhão, marca turística de minha cidade.
Abaixei a cabeça na tentativa de me desviar dos olhos atentos de sua mãe. Foi em vão, mas a menina novamente párou no meio do caminho, olhou para a mãe, olhou para mim e correu em minha direção. Como estava com a cabeça baixa apenas senti um leve cutucar, como se um fada apenas encostasse em mim com um de seus dedos macios. Ergui rapidamente a cabeça e, antes que pudesse falar, Milena concluiu num tom de voz misterioso, como se estivesse a me confessar um grande segredo:
- Não sou princesa. E aquilo serve para eles...
E pôs-se a correr em direção ao carro:
- Para eles quem? - retorqui esperançosa.
E Milena parou, ficou nas pontas dos pés e esticou os braços:
- Para os Tiranossauros Rex! - disse movimentando as mãos como se fossem as mandíbulas do animal.
Enquanto eu piscava, sorrindo feito uma criança por ter compartilhado essa descoberta com ela, a menina se foi. Quando voltei à mim pude apenas avistar o carro que se distanciava e as mãozinhas de Milena com as pontas dos dedos comprimidas no vidro gelado do veículo, os cabelos finos a tentarem uma fuga pela janela.
Ah! Ainda hoje posso sentir seu cutucar macio e a força de seus dedos naquela tarde passageira. E, mesmo depois de algum tempo, me indago: "Será que os Tiranossauros Rex saberiam manusear um Orelhão?"...
A resposta que damos é a certeza de que já não somos mais crianças. Milena, porém, com seu vestido rosado e suas mãos pequenas, deve ser uma privilegiada. Nem princesa, nem nada... Apenas a menina da tarde ensolada.
OBS.: tudo é sempre sujeito a alterações por aqui...
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