quarta-feira, 30 de julho de 2008

A verdade entedia...

Olhei-me no espelho hoje e observei uma mulher com seios voluptuosos, cintura esguia, quadril largo e pele feito veludo. Uma bela mulher, sensual figura feminina. Estou crescendo.

Há pouco tempo eu corria por entre as ruas pacatas de um bairro simples, embrenhando-me por entre as árvores, sujando meus pequenos pés na terra vermelha, abrindo os braços, fechando os olhos e tentando beber a água da chuva.

Eu sorria. Eu era feliz. Eu sempre inventava alegrias e lapidava toda e qualquer infelicidade.

Conseguia passar horas deitada ao chão, cercada por gizes e lápis de cores, rabiscando coisa qualquer e poetisando todas as descobertas que fazia. Desenhava poesia, mares e sóis, gaivotas e caranguejos, cidades com seus carros e prédios cinzentos. Adorava palavras difíceis.

Por anos nutri um velho diário e, ao observá-lo hoje, sinto uma nostalgia indescritível. Engraçado notar que até mesmo minha caligrafia tornou-se ordenada, compreensível, direta. Quando criança, porém, eu fazia estrelas caírem dos céus para as - tão sagradas! - páginas de minha biografia, corações apareciam no final das palavras e tudo era grande, impreciso e encantador, com rostinhos sorridentes em todas as folhas.

Fui uma daquelas crianças introspectivas, que se contentava com qualquer bobeira artística. Era do tipo que saía à rua e voltava cheia de arranhões e hematomas que jamais tinham suas origens descobertas; cultivava insetos misteriosos em lugares ainda mais misteriosos da casa. Eu explorava o mundo. O mundo me explorava, e eu gostava disso. Nem todos apreciavam isso em mim, talvez seja uma das explicações para a minha personalidade tão inconstante.

Passava dias dando aula a meus amigos imaginários. Nunca tive grandes amigos mas possuí, isso é verdade, inesquecíveis companheiros que íam-se embora facilmente conforme o Tempo, andarilho incansável, ía seguindo sua viagem.

Sempre gostei de ficar sozinha. Fisicamente. Em minha cabeça, como é natural em toda a criança, eu contruía castelos medievais, voava nas costas de dragões e era o príncipe que salvava as donzelas indefesas. Fui índio, cacique e pagé. Fui soldado, participei de guerras e sempre voltava para a realidade a pé, exausta. Possuía uma estante com bonecas que eu sequer tocava, tamanho era o medo de despenteá-las, tirava-as da redoma uma vez ou outra e apenas para trocar as roupas e mudar os penteados.

Eu sorria. Eu era feliz. Colava pôrteres nas paredes, suspirava e já idolatrava rock'n'roll.

Certa vez, então, como já era de se esperar, eu cresci. Recordo-me que tive a mesma sensação que senti nessa manhã. Algo estava diferente. Acordei com os pés fora da cama, com uns braços compridos e pernas estranhamente longas. Já podia alcançar a geladeira (como fiquei feliz em saber que podia enxergar os doces que sempre deixavam lá em cima!), ouvia minha voz mais grossa e meu olhar estava sem o brilho que eu tanto gostava de desenhar. Em antigos papéis, que ainda guardo, é possível observar páginas cheias de olhos, olhinhos e olhões, todos cheios de brilho, cheios de vida, alguns com passarinhos e borboletas coloridas. Ainda hoje eu desenho, mas tudo parece opaco, profundo demais, adulto demais.

E então, de um dia para o outro, tudo mudou. Minha cabeça havia virado um porta-vórtice de pensamentos entusiasmados. Recordo-me dos grunhidos e gritinhos que escutava em meu pensar mesmo quando imersa no mais profundo dos silêncios.

E o Tempo, que sempre passou devagar e chegava até a nos acenar, começou a correr! Corria, corria e fingia não escutar meus apelos para voltar. Tudo se tornou confuso, rápido demais e eu passei a chorar durante as noites e a confessar minhas angústias apenas aos livros que lia. O som pesado embriagava-me e a descoberta do álcool me entretia. Engraçado como nessa época acreditamos - piamente - que nossos problemas e conflitos internos são únicos! Tolice, se eu houvesse descoberto isso antes talvez tudo fosse diferente. Talvez não.

Hoje em dia eu moro sozinha, em uma cidade que conheço há menos de seis meses, com pessoas que são sempre amáveis e atenciosas, mas que eu nunca vi na vida. Não posso mais colar pôsteres, nem pintar as paredes e, se por ventura, me avistam desenhando dizem: "Você não tem nada mais importante pra fazer?!"

Estou na faculdade. Completei 18 anos há pouco tempo e lavo e cozinho pra mim. Meus pais estão 200 quilômetros distantes e a distância que me separa de meus antigos companheiros parece-me infinitamente maior.

Moro ao lado de um boteco - isso me conforta - fazendo frente à uma Delegacia (isso me incomoda) e no final de um corredor de apartamentos familiares... Ao menos a bagunça e o cheiro bom de comida me ajudam a matar a saudade de casa.

Leio e estudo quase o dia todo. Páro apenas para acender o cigarro que eu não deveria fumar e para deitar num canto qualquer e dormir.

Não bebo mais a água da chuva, mal sujo os meus pés e não tenho mais o antigo diário. Tudo se tornou sistemático, dramático demais para se perder tempo com essas coisas.

Há pouco tempo eu corria pelas ruas e voltava toda suja para casa, comia bolo de cenoura e desenhava o resto do dia. Escondia meu corpo em transformação com roupas largas e abominava espinhas. Ouvia som pesado e suspirava aliviada.

Na última vez em que andei pelas ruas me escorei em um boteco e cheguei em casa cheirando à cachaça. Rabisquei uns versos imbecis e fui direto para a cama. No dia seguinte a Dona Responsabilidade, aquela que é o mais temido dos fantasmas que aterrorizam os que crescem, veio me acordar e concedeu-me uma ressaca. Então levantei, olhei-me no espelho e observei uma senhora de idade, com uma melancolia agonizante no olhar, que me sorria e acenava. Esfreguei os olhos, acendi um cigarro e a senhora sumiu.

O Tempo resolveu dar uma trégua agora, mas continua correndo, ainda.

Hoje olhei no espelho e enxerguei uma mulher com seios voluptuosos, cintura esguia, quadril largo e pele feito veludo. Uma bela mulher, sensual figura feminina. Com um brilho incomum nos olhos e um sorrir de menina.

Estou crescendo.

Ninguém perguntou se era isso mesmo o que eu queria... Estou aprendendo a lidar com tudo muito rápido.

Descobri que minha vida não precisa ser cronológica, são as desventuras que valem realmente a pena.

Agora me falta apenas um amor. Talvez eu o resgate. Talvez eu apenas o desgaste.

É possível que eu o arraste nos fios de meu pensamento por mais algum tempo.
É possível que eu continue cultivando lamúrias e descrevendo sensações banais.

Sei apenas que não existo.
Eu apenas insisto.

Nenhum comentário: